Todo mundo sabe que TFP é um bando de FDP. Porytsanto, Dilma reagir a TFP com mais TFP é se acumpliciar a Serra; o PT praticou na máquina do Estado a mesma tática chantagista e denuncista de que Serra hoje se utiliza na máquina publicitária, o que me parece ainda mais deletério. Mas voto na Dilma porque estes valores sagrados tem de ser absoluta e totalmente ( apesar da repugnância que me causam os adjetivos empregados) extirpados do Brasil.
Entrevistas dos candidatos
Postado em Uncategorized em 25 25UTC julho 25UTC 2010 por luizsoaresjuniorDos candidatos entrevistados pela TV bRasil, sem dúvida o Serra foi o melhor. Por uma simples e funcional razão, que ainda prezo: fala na bucha como fazer, pois a esta altura sabemos que o critério de originalidade não pauta nenhum programa político. Como fazer a reforma política; deu prazos; pontos e contrapontos, travessões; foi rascante como Rivrotil com vodka. Enfim, odioso: eu odeio “programas”, “estabelecimento de metas”, este beletrismo barra pesada de almoxarife. Mas já – novamente- somos gatos escaldados e resfriados, as regras estão todas dadas, cartas na mesa… os trunfos são e serão os de sempre, as alianças das alianças, os sub-pactos, os Senhores das Moscas ( José Dirceu, Fernando Henrique), os pés coladinhos sob a mesa.
Então, a diferença a ser aferida- se realmente houver- vem sempre à tona por meio de um discurso, e sobretudo de seus conectivos nucleares: os como se, ainda que, através de… é isso que conta. Só não voto no Serra porque ainda tenho estômago para ter de aturar a camarilha que vem com ele, embora a do PT seja camarilha e meia. Mas o Lula, sem dúvida, foi um presidente pragmático, raso e rasteiro como há muito precisávamos, e graças a Odin, em tempos de bonança no mercado internacional, ou seja: virou Messias sem passar pela expiação do bode. Aprendi a rastaqüera lição que o PT nos deu por ocasião do Mensalão: voto é a ponta de um iceberg, é micha e rala afirmação de poder, é a fímbria de um maquinário gigantesco e com uma capacidade digestiva monstruosa, onde tudo se perde e se converte em seu contrário, inclusive boas intenções e padrões de conduta, sem contar a boa dose de imponderável com a qual todo espírito zeloso por um certo ideal de bom-senso deve contar ao representar-se as implicações de uma cadeia causal. Ou seja: vote com seu estômago e vísceras, com bom-senso e bom-gosto; não se arrisque,não complique, pois pouco adianta. Pianinho. ( Claro que esta fórmula lapidar deve ser, como toda fórmula lapidar, saudavelmente transgredida).
…a Dilma mais óbvia que um jaburu pedagogo; a Marina me surpreendeu com seu senso de humor, sua transigência primaveral ( um tanto primaveril demais, o que sempre nos lembra, com uma cócega agnóstica, que o halo que circunda a nuca de cada Imaculado político deve em grande parte sua luz ao velho lirico nitrato da Propaganda), sua articulação, seus ex-votos ( amigos assassinados, profissões inconfessáveis senão no banheiro escuro e com a porta fechada, percalços de uma Mater Dolorosa dos seringais), sua energia e- temo- uma nesga de vontade de potência, mal disfarçada sob o manto da Seguridade Social Redentorista dos Rincões e Companhia Limitada… é neurastenia minha, acho-a adorável.
Enfim… espero que possa ao final da campanha suspirar, entrefechado de Pentotal e rosácea libido, como Michel Vaucaire na cançoneta masturbada em fá por Piaf: Non, Je ne regrette rien.
Postado em Uncategorized em 17 17UTC julho 17UTC 2010 por luizsoaresjunior
Minhas primeiras impressões depois de uma entrevista longa com a Roussef me convenceram ( por enquanto) a votar na mulher. Ia votar na marina, voto morno, esquálido, ambarino. Mas Marina terá sempre votos, embora sem ganhar eleição, pois este não me parece ser o seu propósito. E não voto nem a pau no Serra, embora ache ambos os candidatos excelentes, por pura birra-síndrome de ressentido… o Fernando henrique fez a mesma necessária ( em certa fase) -merda-reajuste- e hiperbólica ( em outra) que o Collor, só que maquiavelicamente, em prazo maior; e dividendos mais esparsos; tirai tudo que os escravos virão em dezenas quando lhes conceder-lhes os juros de sua sacramentada moratória… Henrique foi golpista( reeleição), irresponsável ( privatizações em ritmo de oligofrenia galopante), e ainda posou de estadista, o que infelizmente era, e o Lula não é, pois é político até a raiz dos dentes e do caráter ( se é que tem)…… mas ainda prefiro o Lula, proto-golpista que nunca daria um golpe ( pois epocalmente é burrice), foi pai dos pobres e avó dos banqueiros, comme il fault ( e não me venham redarguir com maoísmos, a esta altura), e ainda elegeu prematuramente uma sucessora dura de engolir, com seu economês e liquidezes, além de promover -comme il fault-, o país no mercado oligopólico do mundo, e não o próprio nariz, como o anterior.
… quero entrar nesta briga, é isso.
Fascistas na Globo News
Postado em Uncategorized em 4 04UTC abril 04UTC 2010 por luizsoaresjuniorMuito boa a série da Globo News sobre os bastidores da Redemocratização no Brasil, este programa de auditório para crianças de fino trato ( apesar do Geneton, este lerdo). Hoje tivemos o General Leônidas, um desses realistas que costuma me dar medo quando encontro pela vida; a lenga habitual- Estado em guerra, estado de exceção; logo, tudo é permitido- , com uma pérola que deixaria até Bismarck de queixo caído: os exilados não foram exilados, na medida em que não foram formalmente “convidados” a abandonar o país ( ele , macaco treinado em estratégia, “situa” a noção de exilado nos modelos clássicos do banimento romano e da expatriação grega); considera-os “fugitivos“.
Eu vou deixar pra escrever mais longamente sobre esta fascinante auto-radiografia do Mal – banalmente institucional, institucionalmente banal- na próxima semana, quando vão entrevistar o sinistro canastrão Newton Cruz. O homem dá medo, passados tantos anos ( mas a direita passa no Brasil? me parece, pelo contrário, uma classe estagnada, cristalizada, ou mumificada, e que só se reconhece histórica na medida em que detém o poder, quando no poder: No pasarán!). Capaz de comer o microfone, se vacilarem. Ele me lembra as páginas memoráveis de Nelson Rodrigues em seu “Panegírico ao canastrão”: “O grande ator é inteligente demais, consciente demais, técnico demais. O canastrão, não. Está em cena como um búfalo da ilha de Marajó. Sobe pelas paredes, pendura-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário. Por isso mesmo, chega mais depressa ao coração do povo.”
… ao coração do povo.. estaria aí a chave para a nossa pobre e mirrada resistência, se comparada à argentina, por exemplo? tirando, é claro, o fracasso político, econômico e bélico ( as Malvinas) dos fascistas argentinos…
Big bosta: a cara do Brasil
Postado em Uncategorized em 26 26UTC março 26UTC 2010 por luizsoaresjuniorNada de novo: qualquer pessoa com o mínimo de centelha neuronal que ainda não cedeu à entropia do consumo assassino ( reler As Cartas luteranas, ainda hoje!!!) já sacou o Apocalipse now que aquilo virou, mas vou me contentar em transcrever dois e-mails que mandei para a lista da Redação da Cinética sobre o caso ( pathologicus Rex, na vera):
1. Pois é, a prova de resistência e a delação premiada me lembraram os bons e tétricos tempos da ditadura, exatamente o mesmo modelo de tortura ( bem,houve outros, claro), no caso da prova, impedindo a adaptação do corpo,extenuando, macerando, amestrando, ad infinitum, como ensinava o velho pedagogo iluminista Sade: para que matar, simplesmente devorar o objeto, como os animais, se somos tão civilizados? se podemos eternizar/mediar ( no rito)- à la mauvais infini- a dor e o opróbio?
E a delação premiada é o lado Golbery-Rosenberg do programa, a grande invenção fascista deontológica: a indiferenciação ética, o tohu bohu da moral, carrascos e vítimas confundidos, indiscerníveis, trocando de posição e de papel ( higiênico) no jogo das cadeiras do Poder Total, ubíquo e reversível. Passei e developei.
2. A técnica sórdida me parece consistir ( e a prova de resistência “colaboracionista”foi paradigmática neste sentido) na simulação de um suposto estado de natureza hobesianno, onde tudo é permitido, onde há uma indiferenciação total de valores e de papéis: no “estado de natureza”, mesmo que simulado, não há vítimas e carrascos, não há julgamento portanto; só há presas e caçadores, e o caçador de hoje é a presa de amanhã, eternamente.
Todo o programa é concebido para colocar os participantes em tal estado de stress que eles nos “pareçam” pouco mais do que animais, e aí são elididas e escamoteadas todas as mediações do processo. Enfim, nada de novo, e a referência ao fascismo me pareceu relevante justamente porque o nazismo, por exemplo, levou esta técnica de “indiferenciação valorativa”, de cumplicidade entre vítimas e carrascos ( colocando judeus como guardas e torturadores de judeus, nos campos, obrigando as crianças a delatar os pais que demonstravam “desânimo” ou ceticismo com a causa) a um grau de sofisticação único.
Nesse sentido, concordo plenamente contigo ( Ilana Feldman) quando vc diz que o terrível tá na abolição da vitimização: todos são carrascos, não há nada que transcenda esta diabólica imanência de “entredevoradores”.
Assim, quem pode julgar? A princípio, eu diria: um ponto de vista exterior a todos os pontos de vista interessados e interesseiros ( questão nietzschena do valor). De quem seria este ponto? Deus. Como Deus não existe- e este é o pressuposto absoluto da filosofia do valor de Nietzsche: que Deus não exista, e portanto que um julgamento absoluto seja impossível-, tudo é relativo, mas relativo a um absoluto do valorar, a uma imanência do valorar. Na tv, esse Deus
inexistente, este “buraco negro” da valoração são os espectadores, cada vez menos dispostos a exercer qualquer ponto de vista, a aderir a qualquer exterioridade ou alteridade que possibilite um julgamento de valor,responsabilidade, etc.
O jogo me parece o seguinte: o espectador é levado a pensar- justamente porque pode tão pouco, apenas “reagindo”, como o cão de Pavlov, ao tão pouco que lhe oferece o programa, como a delação premiada- que ele não pode nada, que aquilo “é assim mesmo”, a se ver como alguém incapaz de emitir um julgamento de valor, exatamente como se vivêssemos num estado de natureza, onde tudo é assim mesmo, e ng pode mudar nada, desde as origens até os fins dos tempos ( claro, é um simulacro, mais quand même…) Mais ou menos a mesma estratégia dos ideólogos nazistas, que queriam induzir as pessoas apensar tudo aquilo como um romântico Fatum, uma catástrofe à alemmande, a que o povo estava destinado, algo que não se poderia mudar porque estava inscrito no sangue e na História alemã, e portanto era indiferente ser vítima ou carrascos, já que amanhã o caçador vira presa, etc.
Eu vejo em ambas as experiências- guardadas as devidas proporções, claro, e as diferenças epocais- um tenebroso elogio do demoníaco. Aliás, propiciado/facilitado e amplificado pelo mesmíssimo uso do tele-áudio-visual.
ps: alguém por falor estripa aquela mulher do Boninho? aquele monstro de néon e plástico reciclado me irrita mais que a mulher do Oskar Werner no insuportável Fahrenheit 451.
Dos royalties
Postado em Uncategorized em 26 26UTC março 26UTC 2010 por luizsoaresjuniorBem, em relação aos royalties, só uma coisa me vem à cabeça: é asusstador o modo como, de forma sistematicamente anti-republicana, os nossos políticos se dão ao desfrute de inclusive alterar a definição dos limites do conceito de territorialidade no usofruto e abuso de seus interesses privados, pois é disso que se trata. Ok, o petróleo é reserva nacional, o pré-sal é reserva da reserva nacional, é federal, é constitucional, não estadual, etc
Mas por que agora esta questão, que já deveria ter sido gerida há tanto tempo? E por que neste nível alucinado de expropriação dos estados produtores? Então, esta não deveria ser uma questão. Mas é. A cada m0mento em que a política necessita manipular e gerir seus interesses privados, ela se mexe: questões passivas surgem- passivas no sentido de que não deveriam ser questões, como o caso, mas pontos inquestionáveis: o petróleo é do Estado e ponto!- aliás, já garantidos por uma carta magna como a nosssa ( cheia de pecadilhos e embustes, mas um dia descortinaremos ao Véu de Maia que virou a Constituição e, enfim, liquidaremos seus entulhos e sabugos sacrosossantos) , mobilizações furtivas e sub-reptícias se travam, discursos mal curetados se precipitam em erradicar a placenta a socos e pontapés, Ibson Pinheiro surge do Nada e, tal como a furtiva sombra de Nosferatu, se torna o centro de um cosmo abissal, todos se voltam e se devotam para ele, o centro de um buraco negro, que suga toda e qualquer possibilidade de oposição, ilação, resistência…
…é claro que a coisa não se dá nestes termos, mas não resisto a um tom elizabetano em minhas bem traçadas linhas; o debate está quente- mas quem não sabe que em breve esfriará, congelará, e o cadáver será mandado para o freezer antes mesmo da autópsia , do questionamento de uma reforma política e administrativa, por exemplo?), mas sabemos de antemão o para que ( as eleições iminentes) e do porque: O Lula quer se eternizar com um coup de théatre ( ou um golpe de mestre mabusiano) que marcará para sempre nossos cordiais corações…
Postado em Uncategorized em 22 22UTC março 22UTC 2010 por luizsoaresjunior
Olha, só me ocorre uma coisa sobre este Big brother brasil, com sua prova de resistência inspirada em modelos Golbery-pavlovianos de amestragem e sua delação premiada: Non pasarán!! ( tem na net aliás a oração “premiada” de La Pasionaria, vou ver se acho).
Amanhã mais detalhes sobre esta imundúicie e sobre a estranha catarse sado-maso atual do brasileiro médio-monstro, chamada royalties de petróleo. Tou tentando ainda entender esta putaria, e sobretudo situar… doppo.
Os novos fariseus
Postado em Uncategorized em 3 03UTC março 03UTC 2010 por luizsoaresjuniorFalei abaixo em pentencostalismos de terreiro… Roberto, meu ex-futuro-quase-eterno namorado, costuma ouvir, por divertimento, certos programas evangélicos no rádio. Esta praga virou um verdadeiro trust em matéria de comunicação, e aqui no Nordeste pelo menos não há onda de rádio que não esteja mareada pelos grunhidos histéricos, tomadas de fôlego taquicardíacas e arroubos pulmonares canastrões desses senhores. Discutimos muioto sobre isso. Esse “protestantismo” à la brasilerio de luterano ou calvinista não tem nada, até porque não pegaria aqui. É uma teologia da retribuição que consegue ser ainda mais asquerosa que o modelo do pentencostalismo americano, no qual se inspira. Já não querem o Reino dos Céus, mas o carro na garagem, etc ( não falei que epocalmente somos todos ateus? Deus em concordata).
A popularidade desta praga- que me insulta sobretudo intelectualmente, diante das barbáries hermenêuticas cometidas para com o Velho testamento e das ilações dementes perpetradas contra o Novo, mas também auditivamente, diante dos relinchos em dó maior dos pastores- se explica em parte pelo batidíssimo conceito de homem cordial, do Holanda ( Sérgio de). Homem cordial, todos já sabem, não é exatamente um elogio,e nem tem o sentido corrente de afável, etc. O brasileiro, homem cordial por excelência, é o herdeiro de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter: o homem cordial é aquele que admite todos os credos, cruzes, partidos, opiniões, ilações, suposições, instituições, que onívoramente devora e integra tudo, mas sem acreditar em nada. É o homem sem princípios- o homem sem qualidades- ,que vai à procissão pra gozar do parque de diversões depois, que batiza o filho sem falta na igreja, mas se precisar vai no terreiro, etc… é o homem que usa seus princípios e sua crença em benefício próprio.
Bem, segundo uma velha outra ou fórmula, o fato disto ter sido assumido pela Universal do Reino de Deus significa uma tomada de consciência destes arraigados hábitos, e quem sabe talvez um ultrapassamento… Duvido muito.Falei mais acima em Macunaíma, herói sem caráter. Caráter no sentido de personalidade, de identidade. Mas este acaba por extrapolar para o domínio moral mesmo, pois o homem que não assume nenhum princípio ou crença, por conseguinte não sela o mundo com uma ação, não deixa marcas, pegadas ( quantas vezes já disse isso por aqui, ali e acolá? E vou continuar repetindo, claro: deixar pegadas ou marcas é o único destino do homem). Se não se deixa identificar por uma ação, pelo estigma de um caráter, então, amigos, pro reino da puta que pariu qualquer possibilidade de cultura , e só faltam dois passinhos, aqueles diligentemente possibilitados pela ruína da fé católica ( que, pro bem e pro mal, ainda mantém o homem commum com um pé na transcendência, seja para libertá-lo- da carne-, ou para aprisioná-lo- no dogma) e pelo grande, genial negócio que Edir macedo e companhia vem empreendendo: amortização, prazo a perder de vista ( o Céu é, literalmente, o limite, mas da prorrogação da dívida e do resgate irresgatável- não mais irredimível, em módicas prestações); mas dividendos e estornos em curtíssimo prazo, ao alcance do fiel e do pastor, que não precisam mais morrer para alcançar a Graça.
Isto indiretamente eles herdaram dos judeus, como bem mostra a análise de Nietzsche da origem da moral numa relação de compensação financeira ( antes: fiduciária), que se traduzia, no caso do que infringiu o pagamento da dúvida, ou cometeu quais outras infrações, no uso da violência física, por parte do credor contra o devedor, num signo mneumônico inscrito no corpo do devedor, marcado a ferro e fogo- para não esquecer, e portanto, para não repetir- de que devemos ser sempre bons pagadores. Já está lá no “Perdoai nossa dívidas, assim como perdoamos nossos devedores”, e os estudiosos confirmam que este era o sentido original- literal- da idéia de perdão. Mas tudo agora embaralhado, amarfanhado, espoliado e escarrado por hermeneutas de quinta; D’us me livre!, um dia ainda me desterro deste país. Eparrê, nagô!!
Do suicídio
Postado em Uncategorized em 25 25UTC fevereiro 25UTC 2010 por luizsoaresjuniorNietzsche dizia que a idéia do suicídio ( a carta que tiramos da manga) nos ajudava a passar muitas noites terríveis. Mas quem dará conta dos meus dias? O que me fascina na Morte- eu posso falar dissso com uma certa autoridade, pois não há um único dia desde os 12 anos em que não pense em suicídio- é esta possibilidade bendita de desaparecer absolutamente, sem rastro, sem obra, sem reticência ou parênteses, como se nunca tivesse existido, eis a chave de tudo. Isto me traz um reconforto e uma paz inimagináveis. é um bálsamo para a minha culpa, repisada masoquistica e estéticamente ( eu sempre tiro encenações privadas de “”taras coletivas”, comuns a todos). É claro, é aquela história: “da próxima vez”, quando a dor for insuportável… mas a próxima vez já passou!, a pior das dores sempre já passou! Por isso a carta na manga. Tem uma função quase heurística, a idéia do suicídio.
Mas ultimamente não venho dependendo de êxtases trágicos ou Liebestods para encenar esta petite farsa trágica de cada dia. As coisas que se acumulam e deixam rastros imperceptíveis, o gesto, o fiapo de tom, o germe de rancor…isto que se encrespa e se enluta infinitesimalmente, isto que só um fígado e um cachorro podem captar e entesourar, isto que não chega a se coagular em uma expressão ou sequer um ato violento, pois a pulsão de morte, como papá Freud já dizia, é irrepresentável, ou seja, silenciosa… pode estar em tudo, portanto, no sorriso da criança, na camaradagem mais casual. Daí a necessidade do analista/hermeneuta, para “acossar” a cuja.
Não acredito em análise, ao menos na prática da análise.Não acho que ela não “sirva” para nada, muito menos para salvar ninguém, e se salvasse, isso teria o demérito de desmerecer o imenso crédito intelectual que lhe confiro. Portanto, prefiro ir acumulando as minhas cinzas, deixar meu corpo ser corroído, paulatina e amorosamente, pelo ácido de um demônio cálido, silencioso, imperturbável..embora esta tenha sido uma idéia de “carta de manga” para mim, nunca demonizei o suicídio, simplesmente porque nunca fui católico, e só vejo sentido em semelhante demonização da parte de um católico, a rigor…não levo evangélicos em conta, não neste pentencostalismo de terreiro que vige no Brasil. Outro dia eu escrevo sobre o homem cordial, que tem tudo a ver com nosso pentencostalismo de terreiro, que aliás cada vez mais me dá nos nervos.
Nunca demonizei o suicídio porque sempre fui muito solitário,e cultivei terras áridas e cerradas de estrumes, cheias de vermes, de cadáveres, de ervas daninhas… o suicídio é a mais bela erva daninha do meu jardim? que o seja. Quando tiver de florescer, que alguém vele por ela!, e a torne viçosa, rasteira, viperina, serpenteante… mas com muito amor, espero.
Hoje, deixem-me cultivar a minha flor amarela ( Brás Cubas?), a única flor amarela que me resta neste dia de rabanetes, nabos, chuchus…
ps: A foto acima é de uma fotógrafa que eu adoro, a nova yorkina Francesca Woodman, aliás suicida com 20 e tantos anos. Nada contra, evidentemente…
Deuses e monstros
Postado em Uncategorized em 22 22UTC fevereiro 22UTC 2010 por luizsoaresjuniorUma coisa maravilhosa tá circulando pela web, e graças ao ateísmo que graça ( grassa?) pelo nosso mundinho. Explico. Em 2005, o Governo da Ucrânia restaurou magnificamente todos os filmes de Alexander Dovjenko, sem retórica nem favor nenhum dos maiores cineastas do mundo. Pôs tudo em dvd, e distribuiu mil cópias entre embaixadores. Isso, claro, vazou pela internet, e – pelo menos até agora, logo devem circular as versões em avi-, quem tem conta no Asian dvd ( free), Cinematik ( convite) e Karagarga ( convite), pode baixar esta maravilha.
Por que mundo ateu? Ora, metafisicamente,a existência de Deus não é questão de fé, mas de fundamento; Deus é origem e telos, é o selo das coisas criadas, é o fim e o princípio de um sistema de causalidade e implicação lógico-ontológica que assegura aos seres sua unidade na cadeia “frankensteineana”. Ora, a Internet, rede-rizoma, impuro fluxo de trocas e compartilhamento- pero sem receptor e destinatário definidos, sem Criador e criatura, sem dependência da criatura do incausado do Criador-, só foi uma invenção possível num mundo que não mais acredita – precisa- de um fundamento. É, a metafísica, triste e felizmente, foi acabar nos preconceitos de vizinha, nos ditados populares, nas oposições folhetinescas de novela…seu esclerosado fantasma subsiste, mas a existência de uma “criatura” como a Internet é a definitiva pá de cal em sua outrora imperturbável, inalienável e inexpugnável fortaleza conceitual.
É claro, ganhamos a Internet, mas sem Deus podem esquecer a possibilidade de novos Bach, Vivaldi, Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel, Hitchcock, Rossellini, Caravaggio, Rembrandt, Veronese… bem, com Apollinaire no front a arte também morreu, só faltam enterrar, mas isso nem tão cedo, pois, assim como professar o credo natimorto da esclerótica Sinhôra Metafísica, é chic e dá status ter um mundo só meu na cabeça, um mundo ao qual eu dê uma forma e um destino, um acabamento material, uma objetividade. É chic ainda bancar o demiurgo, nesta época que acumula os cadáveres de demiurgos e taumaturgos… é, sim.


